recordando a MPB

História da MPB com biografias, cronologia dos sucessos e músicas cifradas.

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Posts de 10 maio, 2007

Zé Keti

Publicado por everbc em 10/05/2007

“O Zé ficou quietinho?” – A pergunta da mãe, quando voltava do trabalho, era infalível. E como o moleque Zé sempre ficava quietinho, virou Zé Quieto, logo em seguida, Zé Keti.
Neste século que se finda, na raiz da maioria das coisas boas que aconteceram no ramo samba da árvore da música popular brasileira, tem o dedo de Zé Keti, o compositor que se tornou um dos símbolos de sua escola de samba, a Portela, guardiã da cultura popular e menestrel maior de Madureira, a capital dos subúrbios da Zona Norte do Rio de Janeiro.
Nascido em 1921, José Flores de Jesus fez do bairro carioca de Bento Ribeiro e contornos o seu reinado. Ninguém cantou a Portela como ele, ninguém soube compreender a beleza e a importância do mar em azul e branco que cobre a passarela a cada carnaval, vencendo ou não a competição com as co-irmãs. Zé era portelense e deixou isso bem claro em suas rimas e harmonias.
Criador perfeito em A voz do morro, crítico social em Acender as velas, lírico em Máscara negra, boêmio em Diz que eu fui por aí, cronista em Malvadeza durão, historiador em Jaqueira da Portela, ator de teatro no show divisor de águas Opinião e de cinema em Rio, 40 Graus e A Grande Cidade, Zé Keti tinha a generosidade entre outras de suas qualidades.
Foi ele, quando diretor musical do restaurante Zicartola – outro marco cultural carioca e brasileiro -, que lançou dois novos compositores: Elton Medeiros e o menino (também portelense) Paulo César Batista de Faria, a quem Zé batizou como Paulinho da Viola e para o qual profetizou a carreira que ajudou a consolidar, até mesmo dando a ele para gravar jóias como As moças do meu tempo.
Aos 78 anos, vitimado por uma parada cardíaca, Zé Keti morreu no hospital da Venerável Ordem Terceira Penitência, no bairro suburbano da Tijuca, no seu Rio de Janeiro, na manhã de 14 de novembro de 1999.
Arley Pereira /MPB ESPECIAL / 4/7/1973

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Época de Ouro

Publicado por everbc em 10/05/2007

Em 1964, quando Jacob do Bandolim (Jacob Pick Bittencourt) resolveu reunir em torno de si os melhores executantes dos conjuntos regionais das rádios e estúdios de gravação do Rio de Janeiro, não poderia ter sido mais feliz na escolha do nome do grupo.
Época de Ouro retrata não só o momento raro da música popular brasileira ao qual se refere o nome, como o faz da maneira mais brilhante, mais virtuosa que se poderia encontrar no gênero.
Eram famosos os ensaios no casarão de Jacarepaguá, o castelo de Jacob. O menino Paulinho da Viola acompanhava o pai, o senhorial violonista César Farias, carregando o violão para ter o privilégio de sentar-se silenciosamente a um canto e ouvir os deuses.
Sentados em semicírculo (“chorão” tem de ver as caras dos companheiros, tocar “namorando”), liderados pelo bandolim, lá estavam, além do seis cordas de César, o solene sete-cordas de Horondino Silva, o Dino, o outro “seis” de Carlinhos, o estupendo cavaquinho de Jonas e o pandeiro cantabile de Gilberto.
Passava-se uma vez a melodia, luzes acesas. A segunda era no escuro. Terminada, o vozeirão de Jacob corrigia cada raro erro, que não escapava nenhum a seu ouvido. O mestre só se contentava com a perfeição. Os crescendos e diminuendos maravilhosos em Noites cariocas, por exemplo, são frutos de muito ensaio e burilamento.
Damásio entrou no lugar de Carlinhos. Jorge assumiu o pandeiro de Gilberto. Jacob morreu e seu aluno Deo Rian empunhou o bandolim, e o Época de Ouro continuou a cintilar belezas sonoras.
Qualquer apresentação do grupo sempre foi garantia de música brasileira de primeiríssima qualidade. Mantida por sua formação atual, de que fazem parte os originais Dino e César, mais o também antigo Jorge no pandeiro, Ronaldo no bandolim, Jorge Filho, cavaquinho, e Toni no segundo violão de seis cordas.
Arley Pereira /ENSAIO / 23/5/1997

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MPB-4

Publicado por everbc em 10/05/2007

MPB-4

Rui Alexandre Faria, nascido em Cambuci, em1938, Milton Lima dos Santos Filho, de Campos, 1944, Antônio José Waghabi Filho, de Itaocara, 1945, e Aquiles Rique Reis, de Niterói, 1949, todas cidades do Estado do Rio de Janeiro, formam o mais antigo conjunto de que se tenha notícia, no mundo, a manter, desde a criação, os mesmos integrantes.
Rui, Miltinho e Aquiles criaram o grupo em 1962, em Niterói, e a eles juntou-se, em seguida, Waghabi – que, pelo tipo físico, tinha o apelido de Magro, que mantém ainda hoje. No início, eram o Quarteto do CPC, pois apresentavam-se nos espetáculos promovidos pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.
Foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que os batizou de MPB-4 – e nascia, aí, a sigla MPB, para designar aquele tipo de música popular brasileira voltada para a história urbana da constituição da música popular.
O primeiro disco, um compacto – aqueles disquinhos com uma música de cada lado – saiu em 1964. No ano seguinte eles juntaram as quatro vozes com as das meninas baianas, descobertas por Aloísio de Oliveira, do Quarteto em Cy, num espetáculo montado em São Paulo por Chico de Assis.
Chico de Assis foi um dos incentivadores do jovem Chico Buarque de Hollanda e entra nessa história não só por haver aproximado o xará Buarque do MPB-4 quanto por haver dado o ultimato aos meninos fluminenses: ou vocês largam a faculdade e resolvem fazer música profissionalmente, em tempo integral, ou é melhor desistir. Eles largaram a faculdade, depois de uma reunião – que varou a noite – realizada ali no então célebre bar Redondo, na Av. Ipiranga, em São Paulo.
Começava uma das histórias mais bonitas e íntegras da canção brasileira. Com uma formação de extrema simplicidade – o violão de Miltinho, a tumbadora do Magro, um eventual chocalho de Aquiles e a voz de Rui (inicialmente era só isso), o grupo alcançou um grau de sofisticação que poucas vezes um quarteto vocal conseguiu.
O uníssono é perfeito, as vocalizações (quase sempre escritas por Magro) mudaram o conceito de arranjo vocal e ainda hoje constituem a fórmula em que se baseiam os arranjos vocais. Trabalharam – em shows, peças de teatro, comícios, ou que manifestação tenha sido importante para nossa história recente – com os maiores artistas de seu tempo (houve época em que Chico Buarque não entrava em palco sem eles) e o conjunto de seus discos memoráveis forma uma antologia do que melhor se produziu na MPB – afinal, eles são homônimos da sigla e de certa forma responsáveis por ela – nos últimos 40 anos.
Mauro Dias / MPB ESPECIAL / 4/6/1973

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