Todo o romantismo dramático, exacerbado, que caracteriza o estilo Vicente Celestino está em “Coração Materno”, composição baseada numa lenda de mais de quinhentos anos, segundo o autor. Secular ou não, o fato é que a tal lenda inspirou a mais trágica (se levada a sério) ou mais ridícula canção de nossa música popular (na foto: Vicente Celestino).
Uma canção sobre as desventuras de um sujeito que mata a própria mãe e lhe extrai o coração, para oferecê-lo a namorada, que assim o exige como prova de sua paixão… E quando volta correndo para completar a missão junto à amada, o desastrado matricida tropeça e cai, quebrando a perna. Nesse momento, o coração materno salta-lhe da mão e, rolando pelo chão, exclama: “Magoou-se, pobre filho meu? / vem buscar-me que ainda sou teu…”. Pois esta inacreditável canção impressionou e comoveu os fãs de Vicente Celestino, constituindo-se em um de seus maiores e mais duradouros sucessos.
Em 1968, “Coração Materno” foi utilizado com grande repercussão por Caetano Veloso, no disco Tropicália, simbolizando o culto ao cafona. Em flagrante contraponto à versão patética de Vicente, Caetano deu-lhe uma interpretação linear e fria, acompanhado por uma orquestra de Rogério Duprat.
Assim como O Ébrio, Coração Materno também virou filme, rodado em 1952 e estrelado por Vicente Celestino e sua mulher Gilda de Abreu. Só que no filme, Gilda, autora do argumento, amenizou a tragédia, cancelando o tricídio. Talvez por isso não tenha repetido o sucesso de “O Ébrio”…


Coração materno (canção) – 1937 – Vicente Celestinoclique para ouvir amostra da música

Int.: Dm Em5-/7 A4/7 A7

 Dm                 A7                                         DmDisse um campônio à sua amada:"Minha idolatrada,diga-me o que quer    Am5-/7   D7         Gm Gm/F          E                A7Por ti vou matar, vou roubar, embora tristezas me causes mulher Dm                     A7                                      DmProvar quero eu que te quero,venero teus olhos, teu porte, teu ser    Am5-/7     D7     Gm                  A7              D    A7Mas diga, tua ordem espero,por ti não me importa matar ou morrer"        D        Bm           Em           A7                D  A7E ela disse ao campônio, a brincar:"Se é verdade tua louca paixão      D        D7       G            E               A7Parte já e pra mim vá buscar de tua mãe inteiro o coração"  F#7  Bm               Em             A7               D   A7E a correr o campônio partiu, como um raio na estrada sumiu      D    D7         G         A7                 DmSua amada qual louca ficou, a chorar na estrada tombou Dm                   A7Chega à choupana o campônio                                   DmE encontra a mãezinha ajoelhada a rezarAm5-/7       D7        Gm  Gm/FRasga-lhe o peito o demônio             E                  A7Tombando a velhinha aos pés do altar Dm              A7                                   DmTira do peito sangrando da velha mãezinha o pobre coração Am5-/7     D7         Gm                 A7                 D A7E volta à correr proclamando:"Vitória, vitória,tens minha paixão"        D         Bm     Em        A7               D    A7Mas em meio da estrada caiu, e na queda uma perna partiu        D         D7         G            E             A7E à distância saltou-lhe da mão sobre a terra o pobre coração F#7     Bm             Em                 A7          DNesse instante uma voz ecoou: "Magoou-se, pobre filho meu?     D         D7           G           A7                    DVem buscar-me filho, aqui estou, vem buscar-me que ainda sou teu!"


Vicente Celestino interpretando “O ébrio”.

O sucesso permanente da canção “O Ébrio” inspiraria, dez anos depois de seu lançamento, a realização do filme homônimo, recordista de bilheteria em todo o país. Impressionado com o personagem, o público chegaria mesmo a identificá-lo com seu criador, o abstêmio Vicente Celestino.
Com efeito, o tema e principalmente a forma declamada da interpretação foram fatores decisivos para que se chegasse a tal exagero. A letra dramática, repleta de desventuras e imagens beirando a pieguice, é uma perfeita sinopse para o enredo de um filme, desde o prólogo falado à parte musical propriamente dita. Nesta, o contraste da primeira parte, no modo menor, com a segunda, no modo maior, contribui para ressaltar a tragédia do protagonista. “O Ébrio”, que também inspirou uma peça de teatro (em 1936) e uma novela de televisão (na TV Paulista, em 1965), foi lançado no terceiro disco de Vicente Celestino na Victor, gravadora onde ele permaneceu por 33 anos, até sua morte em 1968.
O Ébrio (canção) – 1936 – Vicente Celestinoclique para ouvir amostra da música
“Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a “Tosca”, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa.
Um dia, quando eu cantava “A Força do Destino”, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita…
E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez “A Força do Destino”, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio, ébrio…”

—–Am——— E7————————- Am
Tornei-me um ébrio, na bebida busco esquecer
————-A7 ———————————-Dm
Aquela ingrata que eu amava, e que me abandonou
———————Dm6 ———Am
Apedrejado pelas ruas, vivo a sofrer
————–B7—————————- E7
Não tenho lar, e nem parentes, tudo terminou
———————————————Am
Só nas tabernas é que encontro o meu abrigo
———–A7——————————- Dm
Cada colega de infortúnio, um grande amigo
————————-Dm6————— Am
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
————E7—————————– Am ——–E7
Me aconselham, e aliviam os meus tormentos

———-A——– Gb7 ———Bm
Já fui feliz e recebido com nobreza até
—————-E7———————– A ——-E7
Nadava em ouro, e tinha alcova de cetim
————–A—————- Gb7 ————-Bm
E a cada passo um grande amigo em que depunha fé
————–E7 —————A
E nos parentes . . . confiava sim . . .
————————–Gb7——– Bm
E hoje ao ver-me na miséria, tudo vejo então
———-D7 —————————Db7
O falso lar que amava, e a chorar deixei
————Dm——— F -—-A———— Gb7
Cada parente, cada amigo, um ladrão
—————Bm——— E7————- A—– Am
Me abandonaram, e roubaram o que amei.
————E7 ———————–Am
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar
—————–A7———————————- Dm
Quando eu morrer a minha campa nenhuma inscrição
———————————–Dm6———— Am
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
—————B7——————- E7
Este ébrio triste, e este triste coração
———————————————Am
Quero somente na campa em que eu repousar
————–A7————————— Dm
Os ébrios loucos como eu venham depositar
———————————Dm6—— Am
Os seus segredos, ao meu derradeiro abrigo
———-E7 ————————-Am
E suas lágrimas de dor ao peito amigo

Ouvindo-te (tango-canção) – 1935 – Vicente Celestino

Basta o castigo que vens dando
Está pouco a pouco me matando
Canto de ti só ouço o contracanto
No entanto queria ver
Justo seria conhecer
Quem vive a amar e adorar

A tua voz estou a ouvir
No entanto eu queria a ti sentir
És tão cruel, que mal te fiz
Que mesmo sem te ver sempre te quis
E teu prazer é que eu sofra de amor por ti
Que te ame sem te ver meu bem-te-vi
E bastaria que só uma vez te visse flor
Depois morrer dizendo bendito amor

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