recordando a MPB

História da MPB com biografias, cronologia dos sucessos e músicas cifradas.

  • Postagens

    abril 2006
    S T Q Q S S D
    « mar   set »
     12
    3456789
    10111213141516
    17181920212223
    24252627282930
  • Categorias

  • Arquivos

  • Cifrantiga Fotos

>Noel Rosa

Posted by everbc em 07/04/2006

>

Noel Rosa mudou os rumos da Música Popular Brasileira. Colocou na medida exata, o peso da poesia nas composições. Tudo o que aconteceria em nossa música nas décadas seguintes teria, de alguma forma, sua marca ou sua influência.

Noel de Medeiros Rosa nasceu no chalé da rua Teodoro Silva, em Vila Isabel (RJ), no dia 11 de dezembro de 1911 e lá morreu, em 4 de maio de 1937. Filho de Manoel Garcia de Medeiros Rosa, funcionário público, e de Martha de Medeiros Rosa, professora que o iniciou nas primeiras letras na escolinha que mantinha na sua própria casa. Nasceu de um parto muito difícil, arrancado a fórceps sofreu afundamento e fratura do maxilar o que lhe causou uma paralisia parcial no lado direito do rosto, como conseqüência carregou o defeito no queixo, o qual acentuava nas suas auto-caricaturas, ao mesmo tempo que manteve-se sempre tímido em público, evitando ser visto comendo.

Quando ainda era pequeno, o pai foi trabalhar em Araçatuba (SP) como agrimensor numa fazenda de café. A mãe abriu uma escola em sua própria casa, no bairro de Vila Isabel, sustenta do assim os dois filhos — o menor, Henrique, nascera em dezembro de 1914. Foi alfabetizado pela mãe e, aos 13 anos, entrou para o colégio Maisonnette, cursando depois o São Bento, onde ficou até 1928, conhecido pelos colegas como Queixinho.

Aos 13 anos, começou a tocar bandolim de ouvido, logo passando para o violão, que aprendeu com o pai e com amigos de casa: seu primo Adílio, Romualdo Miranda, Cobrinha e Vicente Sabonete, entre outros. Por 1925, já dominando o instrumento, tocava em serenatas do bairro acompanhado pelo irmão.

Em 1929, terminado o ginásio, preparou-se para entrar na Faculdade de Medicina, sem deixar de lado o violão e as serenatas. Em Vila Isabel, estudantes do Colégio Batista e moradores do bairro haviam formado um conjunto musical, o Flor do Tempo, que se apresentava em festas de família. Convidados a gravar em 1929, o grupo foi reformulado, com o novo nome de Bando de Tangarás (figura ao lado: charge dos Tangarás), conservando João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito, componentes da primitiva formação, e incluindo-o, pois, embora jovem, era conhecido no bairro como bom violonista. Participou assim das primeiras gravações do Bando de Tangarás, o samba Mulher exigente, seguido de uma embolada e um cateretê (todos de Almirante). No mesmo ano escreveu suas primeiras composições, a embolada Minha viola e a toada Festa no céu, que gravou em 1930 nas duas faces de um 78 rpm da Parlophon. Compôs ainda, em 1931, duas canções sertanejas, Mardade de cabocla e Sinhá Ritinha (com Moacir Pinto Ferreira); decidiu-se depois, definitivamente, pelo samba.

Freqüentando o Ponto de Cem Réis, bar de Vila Isabel, entrou em contato com sambistas dos morros cariocas. Entre eles conheceu Canuto, do morro do Salgueiro, seu parceiro em algumas composições, como o samba Esquecer e perdoar, de 1931, e intérprete das primeiras gravações deste e de Eu agora fiquei mal (com Antenor Gargalhada); este último parceiro era o principal dirigente da Escola de Samba Azul e Branco, do Salgueiro. Dividindo-se entre a música e a medicina, Noel freqüentava a faculdade, que abandonou em 1932, restando dessa experiência de estudante o “samba anatômico” Coração, gravado no ano seguinte.

Em 1930 surgiu seu primeiro sucesso, o samba Com que roupa? apresentado pelo autor em espetáculos do Cinema Eldorado, e que já trazia na letra a observação crítica e humorística da vida carioca que marcaria toda a sua obra. No ano seguinte, essa música entrou em diversas revistas, entre as quais Deixa esta mulher chorar (dos irmãos Quintiliano), Com que roupa? (de Luís Peixoto) e Mar de rosas (de Velho Sobrinho e Gastão Penalva). Ainda em 1931, lançou diversos sambas, entre os quais Mulata fuzarqueira, Cordiais saudações e Nunca… jamais e conheceu Marília Batista, que se tornaria sua intérprete favorita. Por essa época várias composições suas foram aproveitadas em revistas musicais: por exemplo, em Café com música, de Eratóstenes Frazão, apareceram os sambas Eu vou pra Vila, Gago apaixonado, Malandro medroso e Quem dá mais? (ou Leilão do Brasil), e a marcha Dona Araci; em Mar de rosas, de Gastão Penalva e Velho Sobrinho, os sambas Cordiais saudações, Mulata fuzarqueira e Mão no remo (com Ary Barroso).

Ainda como componente do Bando de Tangarás, estreou na Rádio Educadora; depois de passar pela Mayrink Veiga, nesse ano de 1931 atuou na Rádio Philips, em que trabalhou como contra-regra do Programa Casé, apresentando-se também como cantor, ao lado de Almirante, Patrício Teixeira, Marília Batista e João de Barro. Formando com Lamartine Babo e Mário Reis o conjunto Ases do Samba, apresentou- se em São Paulo SP; o sucesso obtido animou-o a excursionar ao Sul do país, com Mário Reis. Em Porto Alegre RS exibiram-se no Cine Teatro Imperial com Francisco Alves, o pianista Nonô e o bandolinista Peri Cunha. Voltaram ao Rio de Janeiro em junho de 1932, depois de apresentações em cidades gaúchas, Florianópolis SC e Curitiba PR.

Convidado por Francisco Alves, passou a integrar, juntamente com Ismael Silva, um trio que participou de diversas gravações na Odeon, usando os nomes de Turma da Vila, Gente Boa e Bambas do Estácio. Formaram também uma tripla parceria, na qual, segundo consta, Francisco Alves teria entrado sobretudo com seu prestígio de cantor, embora seu nome apareça como co-autor, sendo as primeiras, surgidas em 1932, os sambas Adeus e Uma jura que fiz, e a marchinha Assim, sim!. Somente com Ismael Silva, lançou 11 composições, entre as quais os sambas Para me livrar do mal (1932), Ando cismado (1933) e Quem não quer sou eu (1933), gravando com ele diversas dessas composições na Odeon. O ano de 1932 marcou ainda o início de outra parceria responsável por sucessos antológicos, iniciada quando conheceu na Odeon o compositor paulista Vadico. Juntos fizeram Feitio de oração (1933), Feitiço da Vila (1934), Conversa de botequim (1935) e muitas outras, em que apareceu como letrista.

O ano de 1933 é dos mais fecundos da vida do compositor, registrando mais de 30 músicas gravadas. Além dos sucessos carnavalescos Até amanhã, Fita amarela e Vai haver barulho no chatô (com Valfrido Silva), outras produções importantes desse ano foram os sambas Onde está a honestidade?, O orvalho vem caindo (com Kid Pepe), Três apitos e Positivismo (com Orestes Barbosa). No mesmo ano teve início a polêmica com Wilson Batista, em torno da qual seriam produzidos diversos sambas famosos: Lenço no pescoço (Wilson Batista) fazia a apologia do sambista malandro, imagem que contestou com Rapaz folgado; Wilson Batista retrucou com Mocinho da Vila, encerrando a primeira fase da polêmica, que continuou depois de algum tempo com novos sambas de parte a parte.

polemica

Episódios do folclore musical brasileiro: a polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista.

Em 1934 excursionou com Benedito Lacerda, Russo do Pandeiro, Canhoto e outros componentes do grupo Gente do Morro. De volta ao Rio de Janeiro, em junho de 1934 conheceu num cabaré da Lapa a dançarina Ceci (Juraci Correia de Araújo), de 16 anos (foto ao lado), a grande paixão de sua vida e a inspiradora de muitos sambas: Pra que mentir (com Vadico), O maior castigo, Só pode ser você (com Vadico), Quantos beijos (com Vadico), Quem ri melhor, Cem mil réis (com Vadico) e Dama do cabaré e Último desejo. Ainda em 1934 a marcha Linda pequena (com João de Barro) foi gravada por João Petra de Barros; a música, com a letra ligeiramente alterada por João de Barro, foi gravada depois por Sílvio Caldas com o nome de Pastorinhas, vencendo o concurso carnavalesco de 1938, promovido pela prefeitura do então Distrito Federal.

Apesar da notória paixão por Ceci, casou com Lindaura, em 1934. Essa união não alterou em nada sua vida boêmia e as noitadas na Lapa, que acabaram por comprometer sua saúde. Em janeiro de 1935, com lesão nos dois pulmões, foi obrigado a se retirar do Rio de Janeiro para tratamento, indo para Belo Horizonte MG, onde continuou a boêmia, freqüentando bares e o meio artístico da cidade, e apresentou-se na Rádio Mineira. Com a morte do pai no mesmo ano, voltou para o Rio de Janeiro.

Ainda em 1935, Araci de Almeida gravou seu samba Riso de criança, dando início a uma série de gravações que a tornaram uma de suas principais intérpretes. Ingressou então na Rádio Clube do Brasil, onde elaborou o programa humorístico Clube da Esquina, para o qual escreveu revistas radiofônicas que alcançaram sucesso: O barbeiro de Niterói, paródia da ópera II Barbieri di Siviglia, de Gioacchino Rossini (1792-1868), e Ladrão de galinha, em que utilizou músicas populares da época, além de A noiva do condutor, terminada em 1936 pelo maestro Arnold Glückmann, autor dos arranjos. Foi convidado pela produtora Carmen Santos para escrever músicas para o filme Cidade-mulher, dirigido por Humberto Mauro; e compôs então a marcha Cidade-mulher, a valsa Numa noite a beira-mar e os sambas Dama do cabaré, Maria Fumaça, Morena sereia (com José Maria de Abreu) e Tarzan (O filho do alfaiate) (com Vadico).

Prosseguia a polêmica com Wilson Batista, que lançou Conversa fiada, respondendo ao seu Feitiço da Vila (com Vadico), de 1934; contra-atacou com Palpite infeliz (1935), mas não respondeu a dois outros sambas, Frankenstein da Vila e Terra de cego.

Da produção de 1935 destacam-se ainda os sambas João Ninguém, Cansei de implorar (com Arnold Glückmann), Conversa de botequim (com Vadico) e a marcha Pierrô apaixonado (com Heitor dos Prazeres). Em 1936 produziu uma única composição, o samba Você vai se quiser, que gravou em dupla com Marília Batista, e que foi um de seus grandes êxitos naquele ano, ao lado de O ‘x’ do problema, gravado por Araci de Almeida e incluído na revista Rio follie (Jardel Jércolis, Geysa Boscoli e J. Otaviano) e De babado (com João Mina), gravado por Marília Batista. Ainda em 1936, Não resta a menor dúvida (com Hervé Cordovil) e Pierrô apaixonado foram incluídas na trilha sonora do filme Alô, alô, Carnaval, de Ademar Gonzaga.

Em fevereiro de 1937, viajou para Nova Friburgo RJ. Apesar da doença, apresentou-se no cinema local e freqüentava os bares da cidade. De volta ao Rio de Janeiro em março, compôs Último desejo (gravado por Araci de Almeida), e logo em seguida o samba Eu sei sofrer, sua última composição, gravada por Araci de Almeida e Benedito Lacerda exatamente no dia de sua morte.

Em abril viajou novamente, para Barra do Piraí RJ, mas voltou às pressas, em estado muito grave. A 4 de maio morreu em Vila Isabel, aos 26 anos, deixando 230 composições (mais as que vendeu).

noelmorte

Lindaura chora sobre o túmulo de Noel logo após o sepultamento, em 1937. O mito nunca morreu no meio do povo, mas partiu deixando uma grande lacuna na vida de sua jovem viúva.

O Feitiço da Vila

“Vila Isabel veste luto/ pelas esquinas escuto / violões em funeral/ choram bordões choram primas/ soluçam todas as rimas/ numa saudade imortal/ pelas ruas escondida/ cheia de crepes vestida/ a lua fica a chorar/ e por onde a lua chora/ goteja, goteja agora/ nos oitis do Boulevard/ adeus cigarra vadia/ que em toda a sua agonia/ cantava para morrer..”(trecho de “Violões em funeral” de Sílvio Caldas e Sebastião Fonseca).

Noel Rosa era um pândego, quase um humorista, com suas letras irônicas, sarcásticas, quase satíricas. Nas décadas de 20 e 30, ele alegrará o bairro de Vila Isabel, a cidade do Rio de Janeiro e o Brasil. Sua música inovará e, ainda assim, será aceita até pelos conservadores, que não resistirão e deixarão um sorriso, ainda que leve, ir se formando nos lábios, quando o rádio tocar Gago Apaixonado, Que horas são? ou Com que roupa?.

Será um compositor popular, mas, talvez, a figura que melhor se encaixe a ele seja a de um palhaço. Palhaço daqueles que fazem questão de se maquiar colocando uma lágrima no rosto e, a partir dela, ir quebrando lentamente as resistências, ir conduzindo a imaginação de quem ouve, até que surja o sorriso.

A lágrima de Noel sempre esteve estampada em sua face. Surgiu em seu parto: uma operação difícil, resolvida a fórceps, que mobilizou dois médicos e teve como principal conseqüência uma fratura no maxilar inferior do bebê. Mas uma fratura que não foi percebida de imediato e que só seria notada meses depois, passado tempo demais para uma correção definitiva. A criança ficará marcada para o resto da vida. Porém, mais profunda que a deformação física, será a de formação no espírito. Noel carregará um grande complexo. A linha reta que une seu pescoço ao lábio inferior, quase sem a presença do queixo, será responsável por várias amarguras que o acompanharão por todos os caminhos da vida.

Nesse caminhos, Noel Rosa passará inúmeras vezes pelo bulevar 28 de setembro. Em 1932, esta já é a principal rua do bairro de Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. Noel não passa despercebido. Ele tem as costas ligeiramente encurvadas, está sempre acompanhado de um violão e é assim que as pessoas que estão nos bares, nos botequins e nas portas de casas o reconhecem e o cumprimentam. E ele pára para conversar e alonga o tempo do trajeto, que o leva até o ponto do bonde e, de lá, para o Café Nice, no centro, ou para os bares e prostíbulos da Lapa ou do Mangue, na zona norte.

Em 1932, Noel Rosa já é um compositor popular. No carnaval passado, o de 1931, sua música Com que roupa? foi a mais executada. A partir daí, Noel incorporaria o bairro de Vila Isabel ao cenário artístico brasileiro. Ele mudou a vida daquela comunidade. Transformou aquelas ruas, casas, pessoas e botequins, tipicamente cariocas e de classe média, em imagens que passaram a povoar a imaginação coletiva brasileira a partir de 1929, quando, aos 19 anos, ele começou, efetivamente, a produzir música. Noel aos 21 anos já põe em prática um estilo de vida boêmio que o levaria ao sucesso e à fama, mas, aos poucos, também lhe tiraria a vida.

Noel já havia começado a fazer diferença no bairro onde nasceu e morou ainda na infância. Era uma criança inquieta, que sempre chegava em casa com as roupas rasgadas, o corpo suado das brincadeiras da rua. Sempre a rua, que seria mais seu lar que sua própria casa. Seria na rua que Noel construiria boa parte de sua personalidade. Ali, ele trataria com os personagens da vida cotidiana, humilde, miserável, fanfarrona e malandra do Rio de Janeiro de então. A criança, que desde cedo aprendera a conviver com o infortúnio do queixo, com o infortúnio do suicídio da avó enforcada numa arvore do quintal, o mesmo Noel que, anos mais tarde, enfrentaria um segundo suicídio: o de seu pai.

O artista abraçaria o mundo de Vila Isabel e, a partir dele, construiria um novo, no qual as formas se aproximariam do real mas seriam, de algum modo, mais fluidas. O malandro das ruas seria transformado por Noel em símbolo. Os olhos do artista se lançariam sobre o dia-a-dia e encontrariam as ironias, as anedotas, as brincadeiras, os amores e as desilusões de todo dia. Mas Noel Rosa era mesmo um pândego, incapaz de levar a vida dentro de padrões normais de bom comportamento da época. Quando fez dezessete anos, foi convocado pelo exército e serviu no Tiro de Guerra. Sua passagem pelos quartéis ficou marcada por várias repreensões, em função das paródias que ele costumava inventar para as quadrinhas cantadas durante as marchas.

Ainda no Colégio São Bento onde ele completou seus estudos de segundo grau, ficou famoso o episódio em que ele, Noel, seguia à frente de um desfile, comandando um pelotão de alunos. Ele marchava firme, com a espada desembainhada, apontada para o alto, e os colegas o acompanhavam. Mas, de repente, ele começou a dançar e a rebolar e os outros caíram na gargalhada e dispersaram a parada. Valeu uma suspensão.

Depois do exército, estava decidido a realizar o sonho de sua família e se tornar médico. Prestou o vestibular e não passou. No ano seguinte, tentou novamente e foi aprovado. Começou a cursar, mas nessa época, o samba já o absorvia por inteiro. Foi um período em que ele ficou em dúvida sobre que caminhos deveria adotar para continuar a vida. Pensava em se dividir, fazer medicina e continuar sambista. Mas, logo percebeu que a mistura era impossível. A Medicina foi abandonada, mas deixou lembranças, como a letra do samba Coração, uma música anatômica, como afirma o próprio Noel.

Essa mistura de deboche e inconseqüência foi a marca, também, de seu casamento. Por volta de 1930, sua mãe, Dona Martha, já havia transformado a casa da família em uma escola e uma de suas alunas era uma garota chamada Lindaura. E tudo começou com Noel esperando por ela no final das aulas, a pretexto de acompanhá-la até em casa. Como todo namoro, evoluiu para as mãos dadas, os beijinhos e logo, mesmo contra a vontade da mãe de Lindaura, ela já estava casada aos 13 anos de idade. Casada com um Noel 11 anos mais velho que ela, já sambista, já boêmio. Lindaura conta que o casamento foi um misto de alguns momentos hilários e de muitos momentos tristes. Ela se lembra da vez em que os dois combinaram ir ao cinema no centro. Antes, decidiram parar numa leiteria para comer arroz doce. Sentado de frente para a rua, Noel logo avistou algum conhecido e saiu para conversar. Não voltou. Lindaura ficou lá, esperando, em vão, sem dinheiro nenhum para pagar a conta ou tomar o bonde. Foi socorrida pelo garçom que conhecia Noel e lhe emprestou o dinheiro. E ela voltou para casa, dez da noite — o que para os padrões da época era de madrugada —, decidida a nunca mais sair de casa com o marido.

Mas havia o outro lado de Noel. Que deixava versos e bilhetes de amor presos às cordas do violão, para que ela os encontrasse pela manhã, quando ele ainda não havia chegado em casa vindo da noite de boemia. A mesma noite e a mesma boemia que, misturadas ao álcool, foram alguns dos responsáveis por seus pulmões perfurados pela tuberculose, que acabaria levando-o à morte, quando tinha apenas 26 anos, quatro meses e vinte e três dias. Essa foi sempre a marca de Noel. Sua criação não requeria uma condição especial. À noite, a bebida e a poesia iam se misturando e se transformando em canções. Não havia rituais. Sua música não pedia estados de torpor, adormecimento ou euforia. Seus elementos eram outros. E, talvez, tivessem como únicos requisitos o lugar: era na rua que eles surgiam e era nos botequins que eles cresciam e ganhavam a cidade.

No caso de Noel, a música brotava espontaneamente. As sim, quase a esmo. Era uma atividade tão corriqueira quanto conversar com os amigos. Começava cantarolando, as palavras iam se misturando aos sons e pronto! Mais um samba estava terminado. Para Noel, a música sempre foi uma solução. Era a música que lhe aliviava a carga da deformação na face, lhe garantia acesso fácil às mulheres, que, de outra maneira, poderiam desprezá-lo. Era a música que garantia uma certa complacência da família para com seu comportamento até certo ponto irresponsável e lhe abria espaços no meio da sociedade de então. Era por meio da música que ele dava vazão à sua personalidade irreverente e ambígua. Noel Rosa era aquele tipo especial de pessoa que carrega uma tristeza nos olhos mas consegue melhorar um pouco a vida dos que estão em volta.

A trajetória de Noel foi um caminho de duas vias. De um lado, o trágico de sua vida pessoal. De outro, a alegria dos versos e das músicas. Quando ele morreu, já havia virado mito, estava cravado no imaginário popular e suas músicas faziam coro na memória das pessoas. E na memória da MPB.

Cifras e letras de músicas

Obra completa

A-B-Surdo (c/Lamartine Babo), marcha, 1930; A-E-l-O-U (c/Lamartine Babo), marchinha, 1931; Adeus (c/Francisco Alves e Ismael Silva), samba, 1932; Agora, samba, 1931; Alô, beleza, s.d.; Amar com sinceridade (c/Sílvio Pinto) samba, s.d.; Amor de parceria, samba-choro, 1933; Ando cismado (c/lsmael Silva), samba, 1933; Ao meu amigo Edgar (João Nogueira), samba, 1935/1976; Araruta (c/Orestes Barbosa), samba, 1932; Arranjei um fraseado, samba, 1933; Assim, sim (c/Francisco Alves e Silva), marcha, 1932; Atchim (c/Hamilton Sbarra), marcha, 1935/1969; Até amanhã, samba, 1933; Baianinha, choro, 1929; Balão apagado (c/Marília Batista), samba, 1936/1961; Belo Horizonte, paródia, 1935; Boa viagem (c/Ismael Silva), samba, 1934; Boas tensões (c/Arnold Glückmann), valsa, 1935; Bom elemento (c/Quidinho), samba, 1930; Brincadeira de roda, s.d.; Cabrocha do Rocha (c/Sílvio Caldas), samba, s.d.; Cadê trabalho? (c/Canuto), samba, 1932; Canção do galo capão, marcha-paródia, 1935; Cansei de implorar (c/Arnold Glückmann), samba, 1935; Cansei de pedir, samba, 1935; Canta Colombina (c/Jorge Faraj), 1935; Capricho de rapaz solteiro, samba 1933; Cem mil-réis (ou Você me pediu) (c/Vadico), samba, 1936; Choro, choro, s.d.; Chuva de vento, embolada, 1937; Cidade-mulher, marcha, 1936; Coisas do sertão, samba, 1929; Coisas nossas (ou São coisas nossas), samba, 1932; Com mulher não quero mais nada (c/Sílvio Pinto), samba, s.d.; Com que roupa?, samba, 1930; Condena o teu nervoso, paródia, 1935; Contraste, samba, 1933; Conversa de botequim (c/Vadico), samba, 1935; Cor de cinza, samba, 1933; Coração, samba, 1933; Cordiais saudações, samba, 1931; Cumprindo a promessa, 1925; Dama do cabaré, samba, 1936; De babado (c/João Mina), samba, 1936; De qualquer maneira (c/Ari Barroso), samba, 1933; Deixa de ser convencida (c/Wilson Batista), samba, 1935; Devo esquecer (c/Gilberto Martins), samba, 1930; Disse-me adeus, samba, 1935; Disse-me-disse, samba-choro, 1935; Dona Araci, marcha, 1930; Dona do lugar (c/lsmael Silva e Francisco Alves), samba, 1933; Dona do meu nariz, paródia, 1933; Dona Emilia (c/Glauco Viana), marcha, 1930; É bom parar (c/Rubens Soares), 1936; É difícil saber fingir, s.d.; Envio essas mal traçadas, paródia, 1935; É peso, samba, 1932; É preciso discutir, samba, 1931; Escola de malandro (c/Ismael Silva e Orlando Luís Machado), samba, 1932; Espera mais um ano, samba, 1932; Esquecer e perdoar (c/Canuto), samba, 1931; Esquina da vida (ou Na esquina da vida) (c/Francisco Matoso), samba, 1933; Estamos esperando, samba, 1932; Estátua da paciência (c/Gerônimo Cabral), fox-trot, 1931; Este meio não serve (c/Donga), samba, 1936; 5 da manhã (c/Ari Barroso), samba, 1933; Eu agora fiquei mal (c/Antenor Gargalhada), samba, 1931; Eu não, preciso mais do seu amor, s.d.; Eu queria um retratinho de você (c/Lamartine Babo), samba, 1933; Eu sei sofrer, samba, 1937; Eu vi num armazém, paródia, 1935; Eu vou pra Vila, samba, 1930; Faz de conta que eu morri (c/Henrique Gonzales), s.d.; Faz três semanas, paródia, s.d.; Feitiço da Vila (ou Feitiço sem farofa) (c/Vadico), samba, 1934; Feitio de oração (c/Vadico), samba-canção, 1933; Felicidade (ou Que bom, felicidade que vai ser) (c/René Bittencourt), samba, 1932; Festa do céu, toada, 1930; Filosofia (c/André Filho), samba, 1933; Finaleto (c/Arnold Glückmann), samba canção, 1935; Fiquei rachando lenha (c/Hervé Cordovil), samba, 1934; Fiquei sozinha (c/Adauto Costa), marcha-rancho, 1931; Fita amarela, samba, 1933; Fita de cinema, 1935; Foi ele, paródia, 1935; Fui louco (c/Bide), samba, 1933; Fui uma vez, paródia, s.d.; Gago apaixonado, samba, 1930; A Genoveva não sabe o que diz, paródia, 1935; Gosto mas não é muito (c/Francisco Alves e Ismael Silva), marcha, 1931; Habeas-corpus (c/Orestes Barbosa), samba, 1933; Ingênua (c/Glauco Viana), valsa, 1930; Isso não se faz (c/Ismael Silva e Francisco Alves), samba, 1933; Já não posso mais (c/Canuto, Puruca e Almirante), samba, 1932; Já sei que tens novo amor (c/Ismael Silva e Francisco Alves), samba, 1933; João Ninguém, samba-canção, 1935; João teimoso (c/Marília Batista), samba, s.d.; O Joaquim é condutor (c/Arnold Glückmann), marcha, 1935; Julieta (c/Frazão), fox-trot, 1931; Juju, marcha, 1935; Lataria (c/João de Barro e Almirante), marcha, 1930; Leite com café (ou Morena ou loura) (c/Hervé Cordovil), samba, Linda pequena (c/João de Barro), marcha, 1934; Lira abandonada, canção, 1930; Madame honesta, s.d.; O maior castigo que eu te dou, samba, 1934; Mais um samba popular (ou Fiz um poema) (c/Vadico), samba, 1934; Malandro medroso, samba, 1930; Mão no remo (ou Iça a vela) (c/Ari Barroso), samba, 1931; Marcha da prima… Vera, 1934; Marcha do dragão (c/Vadico), 1936; Mardade de cabocla, canção sertaneja, 1931; Maria Fumaça, samba, 1936; Mas como… outra vez? (c/Francisco Alves), marcha, 1932; Mas quem te deu tudo isso?, 1937; A melhor do planeta (c/Almirante), samba, 1934; Menina dos meus olhos (c/Lamartine Babo), marcha, 1936; Mentir (ou Mentira necessária), samba, 1933, Mentiras de mulher, samba, 1932; Meu barracão, samba, 1933; Meu bem, samba, 1931; Meu sofrer (ou Queixumes) (c/Henrique Brito), canção, 1930; Minha viola, embolada, 1930; Morena sereia (c/José Maria de Abreu), marcha, 1936; Muito riso, pouco siso, s.d.; Mulata fuzarqueira (ou Fuzarqueira), samba, 1931; Mulato bamba (ou Mulato forte), samba, 1931; Mulher indigesta, samba, 1932; Na Bahia (c/José Maria de Abreu), samba, 1936; Não brinca não (ou E não brinca não), embalada, 1932; Não digas (c/Ismael Silva e Francisco Alves), samba, 1933; Não faz, amor (c/Cartola), 1932; Não há castigo (c/Donga), samba, 1932; Não me deixam comer, marcha, 1932; Não morre tão cedo!, s.d.; Não quero mais (c/Nonô), samba, 1933; Não resta a menor dúvida (c/Hervé Cordovil), marcha, 1935; Não tem tradução (ou Cinema falado), samba, 1933; Nega (c/Lamartine Babo), samba, 1931; Negócio de turco, paródia, s.d.; Nem com uma flor (c/Francisco Alves), samba, 1933; No baile da flor-de-lis, samba, s.d.; Nos três dias de folia, samba, 1937; Numa noite à beira-mar, valsa, 1936; Nunca dei a perceber (c/Ismael Silva e Francisco Alves), samba, 1933; Nunca… jamais, samba, 1931; Nuvem que passou, samba, 1932; Onde está a honestidade?, samba, 1933; O orvalho vem caindo (c/Kid Pepe), samba, 1933, Paga-me esta noite, paródia, 1934; Palpite (c/Eduardo Souto), marcha, 1932; Palpite infeliz, samba, 1935; Para atender a pedido, samba, s.d., Para bem de todos nós (c/Arnold Glückmann), marcha, 1935; Para me livrar do mal (c/Ismael Silva), samba, 1932; Pastorinhas (c/João de Barro), marcha-rancho, 1934; Pela décima vez, samba, 1935; Pela primeira vez (c/Cristóvão de Alencar), samba, 1936; Perdão, meu bem (c/Ernani Silva), samba, s.d.; Perdoa este pecador (c/Arnold Glückmann), fox-trot, 1935; Perna bamba (c/Renato Murce), samba, 1930; Pesado treze, paródia, 1931; Picilone, samba, 1931; Pierrô apaixonado (c/Heitor dos Prazeres), marcha, 1935; Por causa da hora, samba, 1931; Por esta vez passa, samba, 1931; Por você sou capaz, s.d.; Positivismo (ou Araruta) (c/Orestes Barbosa), samba, 1933; Pra esquecer, samba, 1933; Pra lá da cidade, s.d.; Pra que mentir? (c/Vadico), samba, 1934; Prato fundo (c/João de Barro), marcha, 1933; Prazer em conhecê-lo (c/Custódio Mesquita), samba, 1932; Precaução inútil, paródia, 1935; Pregando no deserto (c/Nonô), samba, 1933; Primeiro amor (c/Ernâni Silva), samba, 1932; Proezas de seu Fulano, s.d.; Provei (c/Vadico), samba, 1936; O pulo da hora (ou Que horas são?), samba, 1931; Qual a razão? (c/Hélio Rosa), s.d.; Qual foi o mal que eu te fiz? (c/Cartola), samba, 1932; Quando o samba acabou, samba, 1933; Quando pelas aulas ando, paródia, 1927; Quantos beijos (c/Vadico), samba, 1936; Que a terra se abra, paródia, 1935; Que baixo (c/Nássara), marcha, 1936; O que é que você fazia? (c/Hervé Cordovil), marcha, 1935; Que orgulho é este? (c/Alfredo Lopes Quintas), samba, s.d.; Que se dane (c/Jota Machado), samba, 1931; Queimei teu retrato (c/Henrique Brito), samba-canção, s.d.; Quem dá mais? (ou Leilão do Brasil), samba-humorístico, 1930; Quem não dança, samba, 1932; Quem não quer sou eu (c/Ismael Silva), samba, 1933; Quem parte, não parte sorrindo, s d., Quem ri melhor, samba, 1936; Quero falar com você (c/Lauro dos Santos), samba, 1932; Rapaz folgado, samba, 1933; A razão dá-se a quem tem (c/Francisco Alves e lsmael Silva), samba, 1933; Remorso, samba, 1934; Retiro de saudade (c/Nássara), marcha-rancho, 1934; Rir (c/Cartola e Francisco Alves), samba, 1932; Riso de criança (ou Seu riso de criança), samba, 1935; Roubou, mas não leva, paródia, 1935; Rumba da meia-noite (c/Henrique Vogeler), rumba, 1931; Saber amar (c/Alfredo Lopes Quintas), samba, 1935; Saí da tua alcova, canção, s.d.; Saí do presídio, s.d.; Salada russa (c/Renato Murce), embolada, 1930; Samba da boa vontade (c/João de Barro), samba, 1931; Se a sorte me ajudar (c/Germano Augusto Coelho), samba, 1934; Século do progresso, samba, 1934; Sei que vou perder (c/Alfredo Lopes Quintas e Nonô), samba, 1933; Seja breve, samba, 1933; Sem tostão (c/Artur Costa), samba, 1932; Seu Jacinto, marcha, 1933; Seu Zé, paródia, 1935; Silêncio de um minuto, samba, 1935; Sinhá Ritinha (c/Moacir Pinto Ferreira), canção sertaneja, 1931; Só pode ser você (ou Ilustre visita) (c/Vadico), samba, 1935; Só pra contrariar (c/Manuel Ferreira), samba, 1932, Só você, s.d.; O sol nasceu pra todos (c/Lamartine Babo), samba, 1933; Sorrindo sempre (c/Lauro dos Santos, Ismael Silva e Francisco Alves), samba, 1933; Suspiro (c/Orestes Barbosa), samba, s.d.; Tarzã, o filho do alfaiate (c/Vadico), samba-choro, 1936; Tenentes do diabo (c/Visconde de Bicuiba e Henrique Vogeler), marcha, 1932; Tenho raiva de quem sabe (c/Kid Pepe e Zé Pretinho), samba, 1934; Tenho um novo amor (c/Cartola), samba, 1932; Tipo zero, samba, 1934; Três apitos, samba, 1933; Triste cuíca (c/Hervé Cordovil), samba, 1934; Tudo nos une (c/Arnold Glückmann), marcha, 1935; Tudo pelo teu amor (c/Arnold Glückmann), samba-canção, 1935; Tudo que você diz, samba, 1933; Último desejo, samba, 1937; Uma coisa ficou (c/Hervé Cordovil), 1933; Uma jura que eu fiz (c/Francisco Alves e lsmael Silva), samba, 1932; Vagolino de cassino, paródia, s.d.; Vai haver barulho (c/Francisco Alves), samba, 1933; Vai haver barulho no chatô (c/Valfrido Silva), samba, 1933; Vai para casa depressa (ou Cara ou coroa) (c/Francisco Matoso), samba, 1933; Vaidosa, samba, 1931; Vejo amanhecer, samba, 1933; Verdade duvidosa, samba, s.d.; Vingança de malandro, samba-canção, 1930; Vitória (c/Nonô), samba, 1932; Você é um colosso (ou Pisando no meu calo), samba, 1934; Você foi meu azar (c/Artur Costa), samba, 1931; Você, por exemplo, marcha, 1933; Você sabe de onde eu venho?, paródia, 1928; Você só… mente (c/Hélio Rosa), fox-trot, 1933; Você vai se quiser, samba, 1936; Voltaste pro subúrbio (ou Voltaste), samba, 1934; Vou fazer um samba (c/Russo do Pandeiro), samba, 1934; Vou te ripá 1, samba, 1930; Vou te ripá 2, samba, 1930; O x do problema, samba, 1936; Yolanda, samba, 1935.

Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira – Art Editora PubliFolha; MPB Compositores – Noel Rosa – Editora Globo; Site Cifrantiga – Cifras e História da MPB.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: