recordando a MPB

História da MPB com biografias, cronologia dos sucessos e músicas cifradas.

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Posts Tagged ‘catulo’

Luar do sertão

Posted by everbc em 06/08/2007

A toada “Luar do Sertão” é um dos maiores sucessos de nossa música popular em todos os tempos. Fácil de cantar, está na memória de cada brasileiro, até dos que não se interessam por música. Como a maioria das canções que fazem apologia da vida campestre, encanta principalmente pela ingenuidade dos versos e simplicidade da melodia. Embora tenha defendido com veemência pela vida afora sua condição de autor único de “Luar do Sertão”, Catulo da Paixão Cearense deve ser apenas o autor da letra.

A melodia seria de João Pernambuco ou, mais provavelmente, de um anônimo, tratando-se assim de um tema folclórico – o côco “É do Maitá” ou “Meu Engenho é do Humaitá” -, recolhido e modificado pelo violonista. Este côco integrava seu repertório e teria sido por ele transmitido a Catulo, como tantos outros temas. Pelo menos, isso é o que se deduz dos depoimentos de personalidades como Heitor Villa-Lobos, Mozart de Araújo, Sílvio Salema e Benjamin de Oliveira, publicados por Almirante no livro No tempo de Noel Rosa.
Há ainda a favor da versão do aproveitamento de tema popular, uma declaração do próprio Catulo (em entrevista a Joel Silveira) que diz: “Compus o Luar do Sertão ouvindo uma melodia antiga (…) cujo estribilho era assim: ‘É do Maitá! É do Maitᔑ. A propósito, conta o historiador Ary Vasconcelos (em Panorama da música popular brasileira na belle époque) que teve a oportunidade de ouvir “Luperce Miranda tocar ao bandolim duas versões do ‘É do Maitá’: a original e ‘outra modificada por João Pernambuco’, esta realmente muito parecida com Luar do sertão”.
Homem humilde, quase analfabeto, sem muita noção do que representavam os direitos de uma música célebre, João Pernambuco teve dois defensores ilustres – Heitor Villa-Lobos e Henrique Foreis Domingues, o Almirante – que, se não conseguiram o reconhecimento judicial de sua condição de autor de Luar do Sertão, pelo menos deram credibilidade à reivindicação. Ainda do mesmo Almirante foi a iniciativa de tornar o Luar do Sertão prefixo musical da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a partir de 1939.

Luar do Sertão———– clique para ouvir amostra da música

——–G ———-Em ——-Am ——–D7——– G—– D7
Não há, ó gente, oh não luar / Como este do sertão (bis)

————–G——- Em———— Am————————— D7
Oh que saudade do luar da minha terra / Lá na serra branquejando
————————G D7——- G——— Em———- Am
Folhas secas pelo chão / Esse luar cá da cidade, tão escuro
————————–D7——————- G——- D7
Não tem aquela saudade / Do luar lá do sertão (refrão)

————–G ——–Em ———Am————————— D7
A gente fria desta terra sem poesia / Não se importa com esta lua
———————–G D7————- G——— Em——- Am
Nem faz caso do luar / Enquanto a onça, lá na verde capoeira
————————D7——————– G—— D7
Leva uma hora inteira, / Vendo a lua a meditar (refrão)

—————–G————— Em———- Am
Ai, quem me dera que eu morresse lá na serra
————————D7———————- G——- D7
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez
————-G————- Em ——–Am
Ser enterrado numa grota pequenina
————————D7 —————-G ——-D7
Onde à tarde a surunina chora sua viuvez (refrão).

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Caboca de Caxangá

Posted by everbc em 06/08/2007

Em entrevista a Joel Silveira, nos idos de 1940, Catulo da Paixão Cearense declarou-se “um sertanejo do sertão”, ressaltando o mérito de saber descrevê-lo muito bem, apesar de não conhecê-lo. Parte desse mérito ele deveria creditar ao violonista João Pernambuco (João Teixeira Guimarães), com quem conviveu por diversos anos e que lhe forneceu, além de alguns temas musicais, um variado vocabulário sertanejo que usaria em seus versos. Um exemplo dessa colaboração é a composição “Caboca de Caxangá”, que entrou para a história assinada apenas pelo poeta.

Inspirado numa toada que João lhe mostrara e que teria melodia do violonista, composta sobre versos populares, Catulo escreveu extensa letra, impregnada de nomes de árvores (taquara, oiticica, imbiruçu…), animais (urutau, coivara, jaçanã…), localidades (Jatobá, Cariri, Caxangá, Jaboatão…) e gírias do sertão nordestino, daí nascendo em 1913 a embolada Caboca de Caxangá, classificada no disco como batuque sertanejo. E nasceu para o sucesso, que se estenderia ao carnaval de 1914, para desgosto de Catulo, que achava depreciativo o uso da composição pelos foliões.

Caboca di Caxangá – Catulo da Paixão Cearense clique para ouvir amostra da música

E——————- C7—————— Fm
Laurindo Punga, Chico Dunga, Zé Vicente
————————-B7———————-E
E esta gente tão valente / Do sertão de Jatobá,
———————–C7———– Fm
E o danado do afamado Zeca Lima,
————————–B7————————-E
Tudo chora numa prima, / E tudo quer te traquejá.

———————B7————————E
Caboca di Caxangá, / Minha caboca, vem cá.

————E———- C7————– Fm
Queria ver se essa gente também sente
—————————–B7
Tanto amor, como eu senti,
—————————-E
Quando eu te vi em Cariri!
———————–C7———– Fm
Atravessava um regato no quartau
———————–B7————————- E
E escutava lá no mato / O canto triste do urutau.

————————B7—————————E
Caboca, demônio mau, / Sou triste como o urutau!

E——————- C7———————- Fm
Há muito tempo, lá nas moita das taquara,
—————————–B7————————–E
Junto ao monte das coivara, / Eu não te vejo tu passá!
——————C7————– Fm
Todo os dia, inté a boca da noite,
————————B7———————-E
Eu te canto uma toada / Lá debaixo do indaiá.

————————-B7———————-E
Vem cá, caboca, vem cá, / Rainha di Caxangá.

E—————— C7—————— Fm
Na noite santa do Natal na encruzilhada,
————————–B7————————–E
Eu te esperei e descantei / Inté o romper da manhã!
————————–C7———— Fm
Quando eu saía do arraiá, o sol nascia
————————-B7——————-E
E lá na grota já se ouvia / Pipiando a jaçanã.

————————B7————————–E
Caboca, flor da manhã / Sou triste como a acauã!

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Flor do mal

Posted by everbc em 06/08/2007

O poeta Domingos Correia suicidou-se no dia 6 de maio de 1912, bebendo um copo do desinfetante Lisol, numa casa de chope no Rio de Janeiro. Antes, porém, perpetuou nos versos da canção “Flor do Mal” o motivo do suicídio: sua paixão não correspondida por Arminda Santos, uma jovem pernambucana que então iniciava carreira artística nos palcos da cidade.
“Oh! Eu me recordo ainda / desse fatal dia / em que tu me disseste, Arminda, / indiferente e fria / eis do meu romance o fim…”. Como não era compositor, fez esses versos tristíssimos em cima da melodia, mais triste ainda, de “Saudade Eterna”, uma valsa do violonista Santos Coelho, autor de um método de guitarra portuguesa, muito usado na época.
Tendo recebido em 1909 a letra de Catulo da Paixão Cearense (sob o título de “Ó como a saudade dorme num luar de calma”). “Saudade Eterna” era apenas razoavelmente conhecida, tornando-se grande sucesso ao transformar-se em “Flor do Mal”, talvez até pelo impacto da tragédia.
Segundo o historiador Ary Vasconcelos (em Panorama da música popular brasileira na belle époque), Domingos Correia “era branco, baixo e tinha uma. cabeça enorme”, o que lhe valeu o apelido de Boneco nos meios boêmios onde “bebia e cantava com voz possante”. Com tal figura, era mesmo tarefa impossível ao Boneco conquistar a bela Arminda.
Flor do mal (Saudade eterna)——- clique para ouvir amostra da música
valsa – 1912 – Domingos Correia / Santos Coelho
Oh ! Eu me recordo ainda, / Deste fatal dia… / Em que tu me disseste, Arminda, / Indiferente e fria.
– Eis do meu romance o fim! / – Senhor! / – Basta! / – Esquece-te de mim, / Amor.
Por que? / Não procures indagar, / A causa ou a razão?
Por que? / Eu não te posso amar? / Oh ! Nunca quis não, / Será fácil te esquecer. / Prometo, / Oh! minha flor, / Não mais ouvir falar de amor.
Eu! / Hipócrita! / Fingido coração! / De granito… / Ou de gelo… / Maldição…
Ah! / Espírito satânico! / Perverso! / Titânico chacal… / Do mal… / Num lodaçal imerso…
Sofrer! / Quanto tenho sofrido! / Sem ter uma consolação! / O Cristo também foi traído! / Por que? / Não posso ser então… / Oh, Não !
Que importa, / O meu sofrer ferino… / Das coisas é ordem natural! / Seguindo o meu destino, / Chamar-te-ei, eternamente, / A Flor do Mal.
Sofrer! / Quanto tenho sofrido! / Sem ter uma consolação! / O Cristo também foi traído! / Por que? / Não posso ser então… / Oh, Não!
Que importa, / O meu sofrer ferino… / Das coisas é ordem natural! / Seguindo o meu destino, / Chamar-te-ei, eternamente, / A Flor do Mal….
Fonte: A Canção no Tempo – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34

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